[CRÔNICAS DEMOCRÁTICAS] Confissões de um quase cinquentão

Na primeira de uma série de crônicas sobre o tema, o colunista analisa os sentidos da experiência física e psíquica de se aproximar de meio século de vida

Márcio Almeida

A expectativa era a de que nesta altura do campeonato as coisas estivessem bem resolvidas. Não que tudo já devesse estar em forma definitiva. Afinal, a definição completa só vem na inscrição do túmulo, e as definições parciais não combinam com quem está sempre em busca de um modo novo de passar manteiga no pão ou de um caminho diferente para chegar ao trabalho.

Talvez fosse apenas a compreensível expectativa de quem não esperava chegar à fronteira da quinta década vivendo a rotina de mudar de bairro, morar sozinho com o cachorro ou começar um negócio. Ou, quem sabe, fosse a não menos compreensível expectativa de quem, sendo um avô da safra de 1972, não esperava ter uma filha de três anos correndo pela casa em 2022.

Para os que já ultrapassaram a marca, tais expectativas sobre a maturidade talvez pareçam pouco maduras. Afinal, como diz a filosofia encantadora das ruas, a regra é não haver regras, de modo que a cada um será dado seu próprio modo de somar cinco décadas. A mesma filosofia nos alerta que não faz sentido esperar que sopremos velas à noite e amanheçamos sábios no dia seguinte.

Confiando nisso, o lado mais solar do meu pensamento crê que ainda é, sim, tempo de fazer escolhas pouco refletidas e se arrepender, tanto quanto é tempo de consertar estragos e tentar de novo. E ainda seria tempo, garante ele, se já tivessem sido contabilizadas sete ou oito décadas e não apenas cinco. Porque viver, já disse Fernando Pessoa, não tem roteiro preciso.    

E assim o meu lado solar, vivendo o agora, vai convencendo o outro lado, dado às sombras da reflexão, de que as expectativas estavam superfaturadas. Mesmo convencido, compreendo o susto. Porque cinco décadas não são quatro mais uma. Entre os quarenta e os cinquenta — e nisso concordam meu lado de sol e meu lado de sombras — há pouca coisa em comum além das quatro letras finais.

A diferença me parece enorme. Tendo passado a maior parte da vida adulta avaliando a força das palavras por dever de ofício, não posso deixar de pensar que não existe, para os quarenta, nada parecido com um “cinquentenário”, palavra que me traz à memória algo como as bodas de ouro de uma revolução política ou de uma vitória do nosso time em campeonato esportivo.

Esse “meio século”, desconfio, também não se parece com seis décadas. Os que já pagaram o pedágio do cinquentenário podem sustentar que não havia, no fim das contas, motivo para alarde. Afinal, observam eles com serenidade, 50 são só 49 mais 1, assim como 60 são só 59 mais 1. Respondo que a serenidade vem depois da travessia. E esta, enquanto se faz, mexe com o corpo e a mente.

No corpo, além dos fios brancos, há marcas que vão aos poucos invadindo o rosto. Não me considero capaz de julgar os que reagem aos invasores com tinta e cirurgia plástica, pois cada um, insisto, tem o seu próprio cinquentenário. De minha parte, aceitei os fios brancos, que se anteciparam em uma década, assim como vou aceitando as marcas da pele, que parecem não ter pressa.

Na mente, mais do que no corpo, as mudanças são visíveis. Ainda não me acostumei, por exemplo, com o sono cada vez mais arisco que teima em fugir no meio da noite. Em compensação, a capacidade de sonhar, dormindo ou acordado, assim como a de rir, seguem intactas até aqui. E isso não é pouco, pois quem haverá de conseguir viver bem sem sonhar e sem rir? 

A versão cinquentona de sonhos e risos me parece, aliás, melhor que a das fases anteriores. Sem limitar seus voos, a imaginação sonhadora se preocupa mais com a segurança do pouso e da decolagem. Já o riso sai ganhando com um refinamento da capacidade de observação. Além de rir com os outros, vamos rindo de nossas próprias confusões ao fazer um pix ou lidar com aplicativos.

Sim, é preciso tomar maior cuidado com os alimentos, assim como é preciso ir fazendo exames, que indicam a conveniência de um suplemento vitamínico ou de um remédio contra a sinusite. Também é preciso aceitar que as juntas, a musculatura e o coração já não têm 25 anos. Mas nada que meta medo em quem bebe pouco, odeia o cigarro e gosta de andar pelo bairro olhando árvores.

Enfim, na contabilidade do cinquentenário, os olhos são convocados a olhar para frente e para trás. Olhando para a frente, tento ver filhos e netos percorrendo com passos firmes o caminho que escolheram para si mesmos, assim como tento enxergar a dignidade que, acredito, continuará a existir quando houver no corpo menos vigor físico e menor agilidade mental. 

Olhando para trás, encontro dois sentimentos. Impossível não me sentir grato por todos os episódios amargos e doces que a vida me serviu no mesmo prato, pois é essa mistura agridoce, acredito, que faz único cada um de nós. E impossível não sentir espanto ao ter, já grisalho, a nítida sensação de que mal começou o caminho de descoberta e aprendizagem do menino nascido em 1972. 

Márcio Almeida é professor, jornalista e analista político do Agora. É autor, entre outros livros, de “Crônicas Quixotescas”, com reflexões sobre o cotidiano.

Instagram: marcioalmeidamg

E-mail: [email protected]

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