‘Beco escuro’

‘Beco escuro’

 

Engana-se quem acha que um estuprador é o homem que está em um beco escuro, em uma ruela, escondido nas sombras da noite. Engana-se quem pensa que um é uma pessoa que vive à margem da sociedade. Engana-se redondamente. O estuprador, ao contrário do que muitos imaginam, pode ser um pai, um tio, um avô, um amigo íntimo da família, o colega da faculdade ou do trabalho, o chefe, o professor, o cara da balada etc... O país acompanhou último fim de semana, o caso da atriz Klara Castanho, vítima de estupro e, em consequência do crime, engravidou. Logo após o nascimento da criança, ela entregou para a adoção. Na semana passada, foi o caso da menina de 11 anos, que estuprada, teve seu aborto negado e, somente após a polêmica envolvendo a situação, conseguiu realizar o procedimento, garantido por lei às mulheres. Todos os dias casos vêm à tona. O que chama mais a atenção – além da coragem das mulheres em denunciar – é o perfil dos estupradores. 

Eles estão em todos os lugares, ocupando os mais – altos – e diversos cargos no mercado de trabalho, tornando o mundo um verdadeiro “beco escuro” para as mulheres. O medo já não é mais só de andar na rua à noite ou de vestir uma roupa mais curta. O medo é de ser mulher, pois eles estão em todos os lugares. A notícia que tomou conta das redes sociais ontem, 29, foi a do atual presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, denunciado por assédio sexual. Além do crime, o que mais estarrece é que o comando da CEF sabia dos casos e acobertou as denúncias, inclusive com promoções. Sim! O mundo é um “beco escuro” para as mulheres. Como se já não bastasse o fato de terem que conviver com o medo de irem a uma festa ou andar em uma rua sozinha depois que o sol se põe, elas também precisam conviver com o medo de trabalhar. 

Casos como o do presidente da Caixa Federal têm se tornado cada dia mais comuns. No ano passado, o então presidente da CBF, Rogério Caboclo, foi denunciado pelos mesmos crimes. A certeza disso é que quanto mais se tem poder, mais se acha que pode, que tem direito e não será denunciado. Em outras palavras, é a certeza da impunidade. O pior de tudo é pensar que o Brasil terá todos os dias mais e mais mulheres nesta mesma condição que a Klara, que a menina de 11 anos, as funcionárias da Caixa e da CBF. Apesar das denúncias, que aumentam a cada dia, e este crime deve, sim, ser denunciado, não há punição. E, claro, a consequência é apenas a certeza de que mais vítimas serão feitas. A única coisa que resta às mulheres é a “sorte” de não ser a próxima neste enorme “beco escuro” chamado mundo, porque eles, os estupradores, estão por todos os lados. Eles vestem terno e gravata, roupa esporte fino, é o amigo confiável, o tio querido e o vovô amável. 

Infelizmente, as mulheres não estão seguras, seja na rua à noite, na balada, no passeio na casa do amigo da família e no trabalho. Isso aqui é apenas um enorme “beco escuro”, onde todas contam apenas com a sorte e a fé.

 

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