Um país infartado

Nas últimas duas colunas (Hipertensão/Angina), chamamos a atenção de forma clara e objetiva do quanto a qualidade de vida exerce importância nas doenças cardiovasculares. Mas nenhuma delas traz impacto tão assustador quanto o infarto. Quantos de vocês, caros leitores, não têm um exemplo entre familiares ou amigos que foi vítima deste mal. Pois saiba que as doenças cardiovasculares são responsáveis pela maioria dos óbitos na população adulta com mais de 35 anos. São responsáveis por 30% dos óbitos no Brasil, sendo a terceira maior causa de internação no país.

A dor usualmente precordial (no peito) com irradiação (mandíbula, dorso ou membros superiores), acompanhada de náuseas, sudorese, vômitos e palidez, nem sempre estará presente. Saiba que, em pacientes diabético, idosos ou mulheres, esta forma de apresentação pode não se manifestar. Com isso, atrasa-se o diagnóstico de um problema que tem como um dos maiores inimigos justamente o tempo. Isso porque, a cada instante transcorrido, perde-se a viabilidade do território acometido pelo fluxo de sangue interrompido. Assim, impede-se não só a recuperação, como deixa-se um rastro de sequelas e riscos irreversíveis para toda a vida, como arritmias e insuficiência cárdica. Sem falar na morte súbita.

Metade dos óbitos ocorre nas primeiras duas horas, sendo que 14% morrem antes do atendimento. O número de mortes e complicações reduziria drasticamente se as unidades de saúde gozassem de um mínimo de estrutura para um diagnóstico. A expressão clínica, após erosão/ruptura de placa e formação de trombo na artéria coronária, faz-se pelo infarto. Basta simplesmente um eletrocardiograma para o diagnóstico imediato. É certo que nem sempre este diagnóstico é possível de ser realizado; muitas vezes, por falta de estrutura, impossibilitando a realização de exames fundamentais de custo baixo nos dias de hoje. Como, por exemplo, enzimas cardíacas, nos casos em que o eletrocardiograma inicialmente puder não definir o quadro. Ou ainda pela inabilidade e falta de prática clínica, já que nosso sistema de governo vem indiscriminadamente despejando médicos no mercado, abrindo faculdades de medicina a cada esquina com intuito unicamente de retorno financeiro de grandes políticos e empresários.

Basta que municípios do interior ou unidades básicas recebam o mínimo de investimentos, como a telemetria de transmissão de eletrocardiograma e suporte via telefone ou internet por profissionais capacitados, visando à avaliação e orientação de um especialista para minimizar o impacto econômico causado por gastos desnecessários, transferências, internações e complicações por um diagnóstico tardio.

De fato, evoluímos, se considerarmos que nosso sistema de saúde vem implantando o Samu (Sistema Móvel de Urgência), minimizando o tempo de atendimento do paciente vítima de infarto. No entanto, se analisarmos a grosso modo, veremos que é necessária a orientação simples, “após análise”, com o uso de alguns comprimidos de AAS no momento correto, além do emprego de fibrinolíticos, ao invés de simplesmente transferir o paciente e deixar em um corredor à espera de vaga para uma angioplastia tardia. Se pararmos para pensar, vamos nos dar conta de que somos um país infartado. Dúvidas? Escreva para a coluna “Seu coração”.

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