Servidor público é suspeito de abusar sexualmente de filha e sobrinha

Da Redação 

No mês em que são realizadas várias ações para a caminhada “Todos contra a Pedofilia”, que neste ano ocorrerá de forma virtual, uma acusação de abuso sexual de uma filha contra o pai é estarrecedora. A prática criminosa contra uma adolescente, hoje com 15 anos de idade, começou desde que ela tinha 5. As revelações da vítima feitas à Polícia Civil (PC) são chocantes. Pelo menos neste caso, a mãe, ao tomar conhecimento dos fatos, apoiou a filha e colabora com todo o processo da denúncia. Quando o acusado passou a residir com filha e a mãe, teria também abusado de sua enteada,  então com 10 anos de idade. Ela, que hoje está com 20 anos, também se lembra de acordar e estar sem calcinha e com ele sentado ao lado dela.

Ambas viviam sob o domínio do medo sem que uma relatasse para a outra. 

E não para por aí. O homem, que é servidor público municipal, teria praticado os mesmos atos contra uma sobrinha, em Estrela do Indaiá, fato narrado em detalhes por ela à polícia. 

Em Divinópolis, onde mora e  trabalha na Prefeitura há 25 anos, o inquérito na Delegacia de Proteção a Crianças e Adolescentes, que tem à frente a delegada Maria Gorete Rios, está em tramitação. Enquanto isso, o acusado, que muitas vezes teria ameaçado a família, segue a vida normal, inclusive trabalhando.

O delegado regional, Leonardo Pio, revelou que o inquérito está em andamento e, brevemente, deve  chegar às mãos do promotor da Infância e Juventude.

O suspeito foi motorista do Conselho Tutelar e transportava crianças e adolescentes retiradas do convívio da família por abuso.

Depoimentos

“Minha mãe não desconfiava. Pelo medo que eu tinha dele, não contei na época. Eu tinha medo de ele matar minha mãe, não eu.” Por trás do silêncio, o medo de expor a verdade: os abusos sexuais sofridos durante a infância e a adolescência. O ato era cometido pelo próprio pai. O Agora teve acesso com exclusividade aos relatos de duas vítimas. Perto dele, nenhum lugar era seguro, nem mesmo a própria casa. 

Ao denunciar os abusos, ambas descrevem fortes cenas das situações a que foram submetidas. Esta reportagem pode apresentar conteúdo sensível, como abuso sexual e pedofilia.

Denúncia

Em 31 de março deste ano, a Polícia Militar (PM) e a Polícia Civil (PC) tomavam conhecimento do caso através da denúncia de uma das vítimas, enteada do acusado, de 51 anos. Sua identidade será protegida e, ao longo do texto, ela será chamada por M.

A estudante, de 15 anos, conta no boletim de ocorrência se recordar de sofrer abusos desde os cinco anos. M. revela que o agressor introduziu dedos em seu órgão genital, lhe beijava, apalpava e tocava  seus seios com as mãos e a boca e dizia que teriam relações sexuais. 

O agressor ia constantemente ao seu quarto durante a madrugada. Em uma das oportunidades, relata M., ele quebrou a chave da porta para evitar que ela não o deixasse entrar e alegou à mãe que a atitude foi tomada por medo de a garota fazer alguma besteira e cometer suicídio.

— Há aproximadamente dois meses, na ausência de sua mãe, quando [M.] saía para a escola, o autor, estando nu, disse "você não vai!", e como ela, temendo que este lhe fizesse alguma coisa, passou a gritar, sendo repelida por ele, que tapou sua boca com a mão — descreve o boletim.

Ele também sedava as duas meninas para cometer os abusos enquanto elas estavam desacordadas, como denunciam as vítimas. 

— [Ela] se recorda certa vez, quando sua mãe viajou a Belo Horizonte, o autor lhe sedou, colocando remédio em seu iogurte, (...) e quando recuperou os sentidos, estava sem as roupas de baixo, mas não sabe se este manteve relação carnal — descreve a ocorrência.

Além disso, ele chegou a oferecê-la bebida alcóolica. Para o suspeito, não havia problema, pois a mãe não iria saber. 

Outros comportamento comum relatado por M. era a compra de lingeries para ela vestir e ele ver. 

— Quando ela saía do banheiro, o autor puxou a toalha e usou o telefone celular para lhe fotografar/filmar — contou à polícia.

A vítima relata também que, em uma das vezes, ele foi até seu quarto, alegou ter embebedado sua mãe.

No depoimento, ela descreve as idas forçadas a motéis.

— [Ela] se lembra que, no mês de dezembro, [ele] a convidou para ir ao Centro e lhe comprar um óculos, mas mudou o caminho dizendo que iria apanhar uma coisa em algum lugar, já abaixando o banco em que ela estava sentada e que entrou no motel [nome do estabelecimento suprimido], dizendo "fique quietinha", entrando nas dependências. Ele a forçou a entrar no quarto e, inclusive, a trancou (...) e lá a deixou por meio hora e, quando retornou, ela começou a gritar e bater na porta, tendo a funcionária do referido motel perguntado o que estava havendo. Posterior a isso, a colocou de volta no carro e saíram. [Ela relata que] que esta não foi a primeira vez que isto teria ocorrido, pois ele já a levou em outro motel — ressaltou em depoimento. 

Outra característica comum do suspeito são as ameaças a ambas as vítimas, que, por medo, sofriam em silêncio.

— A vítima relata que durante toda sua infância e parte de sua adolescência viveu sobre coação, restrições, medo, pois o pai lhe ameaçava, dizendo: "Se você acabar com a minha vida, eu acabo com a sua também" — depôs. 

Ao fazer a denúncia, a mãe de M. ainda relatou ter recebido ligações do agressor de sua filha, pedindo-lhe para mentir sobre os fatos.

Dor e silêncio compartilhados

A outra vítima é sobrinha do homem. Com 14 anos, ela também diz ter sofrido abusos desde a infância. Sua identidade também será preservada e ela será referida apenas com J. Em conversa com uma familiar, J. conta ter relatado o primeiro abuso à M., que já vinha sofrendo da mesma atitude e não se surpreendeu, classificando o ato como “normal”.

— A primeira vez que ele passou a mão em mim foi na minha festa de aniversário de oito anos de idade. A senhora lembra que você tinha me dado um brinco? Ele falou pra mim que o brinco era muito grosso para passar pela minha orelha. Ele pegou e me levou em frente ao banheiro (...) e passou a mão em mim. E eu contei para a M., pode até perguntar pra ela. Eu falei: “seu pai passou a mão em mim”. E ela falou: “ele faz isso mesmo, isso é normal dele” — detalha.

Ela ainda expõe sobre como elas concordaram em manter as acusações veladas, como medo do que ele poderia fazer.

— Eu me lembro que, na primeira vez que eu cheguei a conversar sobre isso com a M., ela falou para mim: “Não vamos falar nada”. Ele ameaça mesmo, ele chega com faca, passa ela no pescoço, passa a faca no seu corpo, ameaça muito mesmo. A M. chegou para mim: “Não pode acabar com o casamento da minha mãe assim”. Ela chegou a falar isso comigo e sofreu calada — afirma.

Novamente, J. também relata ter sido dopada pelo agressor.

— A M. dormiu lá em casa um dia, eu  lembro que meu pai tinha ido para roça, e ele foi lá em casa falando que ele iria olhar eu e a M., eu só sei que nós acordamos peladas. Ele ameaçava, passava a faca em nós, falava que iria me matar, matar minha mãe — acusa J.

Em outro relato, ela expõe as constantes tentativas do suspeito em ficar sozinho com as vítimas. 

— Eu me lembro que ele falou uma vez (...) a gente ia para roça… Ele fez questão de ir cinco pessoas em um carro para eu, ele e a M. irmos em outro. Ele conseguiu e passou a mão em nós — aponta a segunda vítima. 

Na tentativa de colocar um ponto final na história, ela o agrediu em uma oportunidade, mas ainda manteve em segredo a situação.

— A última vez que ele me tocou eu tinha 13 anos. (...) eu dei um chute na cara dele. Foi até perguntado o que ele tinha arrumado e ele falou que tinha sido um carneiro que machucou o rosto dele — diz.

As ameaças, segundo o inquérito, eram tão constantes quanto os abusos e serviam para silenciar as vítimas.

— Minha mãe tinha ido para o serviço, meu pai para roça, meus irmãos trabalhando e ele chegou lá em casa. Ele disse para mim que era para eu tirar a calcinha, pegando a faca, me chupou, passou a mão no meu corpo e quando ele foi [me estuprar] eu gritei muito. A vizinha começou a me chamar e eu tive que ir e conversei com ela. Mas minha mãe não desconfiava. Pelo medo que eu tinha dele, eu não contei na época. Eu tinha medo de ele matar minha mãe, não eu — esclarece.

Apesar da intenção de denunciar a violência sexual, J. e M. temiam pela vida de seus familiares.

— No dia em que meu avô faleceu, que a gente foi pra casa da senhora, ele passou a mão em mim e na J. a noite inteirinha, e nós tentávamos de todo jeito contar pra vocês. A gente tentava, mas como a gente falava? Ele passava a mão em nós e a gente tinha que ficar caladas — denuncia.

Para que os abusos tivessem fim e ele não violasse sexualmente outras meninas, ambas expuseram seus relatos e, para isso, precisam voltar ao passado e relembrar o sofrimento vivido.

— Está sendo difícil para nós duas. Nós estamos contando tudo sobre como foi. Quando nós sofríamos caladas, não falávamos nada, aguentamos tudo sozinhas. Agora, vendo vocês sofrendo, relembrando tudo o que aconteceu, está sendo difícil também. Agora que a minha mãe ficou sabendo que o que ele fazia comigo ele também fazia com a M., porque eu só cheguei a falar o que acontecia comigo e nem cheguei a contar tudo — finaliza.

Medida protetiva

A Justiça aceitou, em 10 de abril deste ano, o pedido de proteção protetiva para M. Com isso, o agressor está proibido de se aproximar da vítima, seus familiares e testemunhas a menos de 100 metros e de ter contato com ela por qualquer meio de comunicação. O direito de visitação foi mantido, desde que intermediada por tios (as) ou parentes próximos. Segundo o documento, até a adequada regulamentação na esfera civil, a vítima não pode criar obstáculos às visitas, e o suspeito não pode aproveitar dos encontros para abalar a saúde física e mental dela. 

A solicitação assinada pelo juiz afirma que todo o relato é coeso e verossímil, e que o requerido estaria ameaçando sua tranquilidade psíquica. Diante de tais fatos, era preciso tomar atitudes de proteção para evitar a “ocorrência de uma mal maior”.

A caminhada 

A caminhada “Todos contra a Pedofilia” está confirmada para o próximo dia 18, mas neste ano muito diferente dos anteriores. Será feita de forma virtual. Para participar da 12ª edição, basta publicar nas redes sociais uma foto com o tema da campanha  e compartilhá-la na página do Facebook: www.facebook.com/todoscontraapedofiliabrasil/, e escrever qualquer frase de apoio. 

De acordo com o idealizador da campanha, o promotor da Infância e Juventude, Carlos José Silva e Fortes, é de grande importância para conscientização da sociedade incentivar as denúncias e combater os crimes de pedofilia.

— Convido a todos para participar deste movimento de defesa e prevenção contra os crimes de abuso exploração de crianças e adolescentes. Vamos lá, basta se manifestar das redes sociais, não precisa ser dia 18, só desde já. Façam vídeos, fotos com a camisa, cartazes, ou da forma de achar mais fácil e conveniente — reforça. 

O promotor diz ainda que qualquer movimento é importante. Lembra para o participante colocar #todoscontraapedofilia porque quando há o manifesto se efetiva a proteção.

— O criminoso pedófilo é covarde e quando ele vê que tem pessoas atentas e que isso ocorre pela internet, em casa e que não vai aceitar isso, criamos um atitude de defesa  e proteção. Assim, mostramos às autoridades e à sociedade civil, aos governantes e às famílias, que queremos a proteção, prevenção e combate a estes crimes — ressalta.

Lembrando que 18 de maio é o Dia Nacional de Combate à Pedofilia.

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