Exclusivo: Prefeitura de Divinópolis se cala diante de denúncias detalhadas de assédio moral

Pollyanna Martins 

“Você é burra, é incompetente.” São com palavras como essas que pelo menos 15 servidoras da Prefeitura de Divinópolis já teriam sido atacadas, em ocasiões diversas, pela diretora de Relações Institucionais e Comunitárias, Patrícia Coelho. Cansada do que classifica como assédio moral e do silêncio da Prefeitura, uma servidora procurou o Agora e relatou os supostos abusos sofridos.

A funcionária, que pediu para não ter o nome divulgado por medo de retaliações, contou que, além dela, outras 14 servidoras já foram vítimas de Patrícia. Também por medo e falta de apoio do poder público, elas preferiram se calar.

Segundo a funcionária, entre os casos está o de uma servidora que chegou a passar por quatro secretarias por perseguição de Patrícia. Conforme revelou a servidora, uma ex-secretária da diretora não aguentou a situação e pediu exoneração do cargo.

Mesmo com medo, a funcionária tomou coragem e contou a sua história. Segundo a servidora, logo no início do mandato de Galileu Machado (MDB), ela e a diretora se deram bem. A princípio, a funcionária trabalhava em uma secretaria e chegou até mesmo a auxiliar na mudança da sala de Patrícia na Prefeitura.

Balançando as pernas por várias vezes durante a entrevista, a funcionária revelou que Patrícia possuiria o que chama de várias “regalias” no Executivo. Uma delas é a sala onde trabalha.

Conforme relatou a funcionária, a sala de Patrícia fica onde seria instalada uma agência bancária. Possui banheiro e cozinha privativos.

— E se ela quiser usar o elevador privativo que o prefeito tem, é só abrir o drywall na sala dela — contou.

Ameaça 

Visivelmente emocionada, a servidora afirmou que os problemas começaram após a publicação de uma foto no Facebook. A funcionária afirma ter comentado em uma foto que Patrícia estava com outra pessoa. Logo depois a diretora enviou-lhe um áudio com ameaças (ao qual a reportagem do Agora teve acesso).

— No áudio ela fala: “você verá. A partir de amanhã você não estará mais na sua secretaria”. Ela falou também que eu deveria colocar a minha cabeça no lugar e pensar muito bem, porque eu tenho um filho — revelou.

Segundo a servidora, ela chegou a mostrar o áudio para o ex-secretario de Governo, Ricardo Moreira, e também para o seu chefe imediato na secretaria. Porém, nada foi feito.

A funcionária procurou a ouvidoria da Prefeitura e formalizou a situação por meio de ofício, mas nenhuma atitude em relação ao seu caso foi tomada.

— Certo dia, estávamos só ela e eu em um corredor. Ela se virou para mim e falou assim: “você está achando que você vai ficar aqui por muito tempo? Você está muito enganadinha”. O assédio moral dentro dessa gestão é muito visível. Ser chamado de burro é normal lá dentro da Prefeitura — desabafou.

Denúncia

 Diante da inércia da Prefeitura em relação à situação, a servidora procurou o Ministério Público (MP), mas não teve a denúncia aceita. Conforme relatou a servidora, o MP só acatou a denúncia dela após aceitar a denúncia da estagiária Gracy Anacleto Antunes, que chegou a registrar um boletim de ocorrência contra Patrícia. A funcionária conta que, depois de ter denunciado o assédio moral no MP, foi transferida de secretaria.

— O MP abriu um procedimento único. Nele estão o meu caso e o da Gracy — contou.

Mais ameaças 

Segundo a servidora, no dia em que ela foi transferida de pasta, um oficial esteve na prefeitura para entregar sua intimação a depor no MP. A funcionária contou que depôs no começo de outubro do ano passado.

Quando achava que tudo estava resolvido, a diretora teria voltado a agir. Com lágrimas nos olhos, a servidora relatou que as ameaças voltaram por meio de mensagem no WhatsApp no dia 28 de outubro do ano passado.

Provas

O Agora teve acesso às mensagens. Nelas, a diretora diz ter visto o depoimento da funcionária e que ela “cuspiu no prato em que comeu”. Patrícia diz ainda, nas mensagens à servidora, que estava “só no começo” e que “mais surpresas” viriam.

— O meu filho estava com o meu celular na mão e viu as mensagens. Nesse dia, eu fiquei muito preocupada. Surtei por causa da preocupação com a segurança do meu filho — desabafou.

Conforme relatou a servidora, mesmo de longe a diretora continua com a perseguição. Segundo a funcionária, a última ação de Patrícia foi pedir a troca de seu horário de trabalho na pasta em que atua.

Saúde mental 

Entre acusações de roubo contra funcionárias, uso de palavras pejorativas para se dirigir a elas e transferências injustificadas de secretarias, a saúde mental das servidoras foi atingida.

A funcionária ouvida pelo Agora contou que, após a perseguição praticada por Patrícia, começou a tomar medicamentos antidepressivos.

— Depois desses casos, tomo remédio. O meu filho está com problema. Ele chegou a ficar internado. Do jeito que chegou ao hospital, ele saiu, sem saber o que era. É tudo emocional. Uma colega minha teve vários problemas de saúde. Ela chegou a ficar dois meses sem menstruar, com dor de cabeça todos os dias e está com princípio de depressão. Tudo por causa da Patrícia — detalhou.

MP 

O MP instaurou em setembro do ano passado uma notícia de fato para apurar “possível ocorrência de assédio moral por parte da servidora Patrícia Conceição Elias Coelho.” A notícia de fato foi encerrada para a abertura do procedimento preparatório, que continua a investigação.

Em nota, o MP informou que estão sendo realizadas algumas diligências. Dentre elas, oitivas de testemunhas.

— Por estar em fase de apurações, não há mais detalhes para serem fornecidos — acrescentou.

Governo 

Em nota ao Agora, a Prefeitura de Divinópolis se limitou a dizer que a apuração dos casos é de responsabilidade do Ministério Público e que não iria se pronunciar sobre os abusos atribuídos a Patrícia.

Sintram 

Por várias vezes, a reportagem procurou o Sindicato dos Trabalhadores Municipais de Divinópolis e Região Centro Oeste de Minas Gerais (Sintram), mas o órgão também não se posicionou sobre o assunto.

 

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