Os Cachaçólogos

Augusto Fidelis

 

 

José Maria Trampolim, chegado a uma “branquinha”, resolveu montar um alambique na sua pequena propriedade, contra a vontade da mulher, Maria Dolores. Assim que Trampolim manifestou a ideia, Dolores pegou a faca da cozinha para sangrar o marido. Porém, com paciência, Trampolim a convenceu de que cachaça está na moda e, sendo de boa qualidade, pode até ser exportada. Com dinheiro no bolso, todos os desejos da companheira seriam satisfeitos, inclusive a troca dos móveis, estes em estado precário. Proposta feita, proposta aceita.

Tudo montado, chegou o dia da primeira alambicada. Cheio de orgulho, disse Trampolim à mulher:

– Dolores, é hoje. Mata duas galinhas e faça uma boa panela de arroz. Vou receber os cachaçólogos que vão degustar a pinga e fazer a classificação.

Dolores não pensou duas vezes e tomou as providências que a ocasião requeria. Os convidados não demoraram para chegar: a pé, de carro, a cavalo, de bicicleta. Surpresa com as figuras que adentravam a porteira, Dolores chamou o marido num canto e deu-lhe uma prensa:

– Escuta aqui, seu safado, até agora eu não vi nenhum cachaçólogo, mas um bando de pinguços. Desde quando Zé Gambá, Tutinho Boca-de-Golo e Tião Vermelhão têm condições técnicas de avaliar qualquer coisa? Da minha galinha, eles não comem, dou tudo para o cachorro, entendeu?!

– Calma, Dolores, os meninos entendem. Só quem bebe pode avaliar se a pinga é boa ou não.

Trampolim ficou apreensivo, com medo de os colegas darem vexame, mas, a essa altura dos acontecimentos, o show tinha que continuar. No momento da degustação, Trampolim pediu a todos que se sentassem, distribuiu as cuinhas e serviu a malvada com solenidade. A degustação precisava de um ritual, para que Dolores anotasse os comentários, já que os cachaçólogos tinham pouca instrução. Coube a Zé Gambá, o mais falante, a honra de abrir a rodada. Tão logo jogou a pinga na garganta, o convidado se levantou de súbito, começou a andar de roda e a gritar:

– Ui! Ui! Ui! Pô, caramba, esta cachaça é o bicho, meu! É o bicho!

– Traz um pedaço de galinha para ele tirar o gosto, Dolores! – bradou Trampolim.

– Da minha galinha, esse vagabundo não come. Vá ser cachaçólogo lá no raio que o parta, carcará!

– Traz a galinha, Dolores, mulher sem coração! Se o Zé morrer, você é quem será responsabilizada!

– Responsabilizada uma ova, foi você quem trouxe esses cachaceiros para dentro de casa. Cria juízo, homem de Deus!

Nesse ínterim, alguém notou que algo fora do comum se passava na propriedade de Trampolim e foi avisar ao delegado Germano Alves, homem respeitado e de reconhecida cultura. Ao chegar ao local e se inteirar dos acontecimentos, sentenciou o homem da lei: “Cachaça filha da cana, neta de satanás. Setenta capetas juntos, não fazem o que a pinga faz”. augustofidelis1@gmail.com

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