OAB e lideranças discutem políticas públicas de prevenção ao suicídio

Matheus Augusto

Ouvir. Um ato simples, mas que pode salvar vidas. Pode parecer exagero, mas não é. A 48ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Divinópolis promoveu uma roda de discussão na manhã de ontem para debater sobre o suicídio. O objetivo era claro: entender melhor, através de estudos e depoimentos, essa tragédia e, posteriormente, mobilizar setores da sociedade na construção de políticas públicas de prevenção.

Acompanhamento

Uma das principais demandas apresentadas foi a necessidade de agir mais rapidamente. Como explica a diretora do Serviço de Referência em Saúde Mental (Sersam), Adriana Choucair de Carvalho Gama, a unidade é um serviço de atenção especializada. Ou seja, o paciente já chega com a ideia de suicídio fixa na mente. Uma vez acolhido, ele recebe os devidos cuidados e medicamentos. Adriana explica que é preciso fazer uma parceria para intensificar, aprimorar ou até mesmo criar programas de prevenção já na atenção primária (como os postos de saúde), principalmente, em relação aos adolescentes.

Diversos temas foram abordados durante o encontro, tais como os perigos das redes sociais e a importância da fé e de líderes religiosos no conforto de pessoas que possuem estágio de depressão avançado. Outra discussão em destaque foi a necessidade de entender melhor as manifestações de pessoas com essa tendência e criar um diálogo baseado não na fala, mas na escuta.

O vereador Renato Ferreira (MDB) também participou da roda de conversa e destacou que é fundamental a união em prol desta causa, independente de religião ou partido.

Durante boa parte de seus 22 anos de existências, o Sersam tinha como política não notificar os casos. Hoje, a notificação se tornou obrigatória.

Ouvir

Todos os presentes, incluindo pastores, educadores e advogados, concordaram que é fundamental deixar essas pessoas falarem e desabafar sobre seus problemas. A diretora explicou que, quando um paciente é admitido, antes de ser encaminhado para um médico psiquiatra, ele passa por uma triagem com um enfermeiro. Muitas vezes, diz Adriana, o paciente tem mais facilidade em se abrir com o enfermeiro do que com o médico.

O promotor de Justiça da Vara da Infância e Juventude em Divinópolis, Carlos José Silva Fortes, esteve presente e deu seu apoio à iniciativa da OAB. Ele ainda sugeriu desenvolvimento de projetos na área, e citou o Centro de Valorização da Vida (CVV). Ainda segundo o promotor, “às vezes, basta ouvir”.

Escolas

Além de tratar da importância da família, dos amigos e da igreja, a diretora do Sersam fez o alerta sobre a responsabilidade das escolas. Segundo ela, em uma parcela considerável dos casos, os sinais de tendências suicidas tendem a ser notados mais no ambiente escolar do que no familiar. No entanto, é preciso que os educadores recebam a devida qualificação para lidar com essas situações.

Pesquisa e parcerias

Adriana Chouquer também contou que a unidade está realizando um levantamento para tentar identificar o cenário da doença na cidade. Um dos pontos a ser apontado no estudo, por exemplo, é a tentativa de compreender por quais razões alguns meses apresentam mais casos do que outros. Adriana explicou que, em determinados meses, já foram registrados 30 atendimentos de pacientes com esse transtorno. Porém, em outros, apenas dois pacientes foram admitidos nessas circunstâncias.

Os presentes também destacaram que as parcerias são de suma importância para os trabalhos de prevenção. Na cidade, por exemplo, foram citados os trabalhos realizados pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e pela Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg), com o apoio de profissionais e estudantes de psicologia

O encontro apontou ainda a necessidade de realizar campanhas de prevenção do suicídio durante todo o ano, e não apenas em setembro, durante o “Setembro Amarelo”.

Propostas

Diversas sugestões surgiram durante a reunião. Um novo encontro deve acontecer daqui a duas semanas já com as proposições mais concretas, bem como a viabilidade de execução desses projetos.

Dentre as sugestões feitas estava, por exemplo, a realização de encontros períodos, como o Alcoólicos Anônimos (AA), para que as pessoas possam conversar, compartilhar seus sentimentos e desabafar. Além disso, foi proposta a criação de um projeto a ser enviado à Câmara para apreciação dos vereadores.

Conversa

Ao término da roda de conversa, o presidente da OAB Divinópolis, Manoel Brandão, contou que o encontro foi fundamental para compreender melhor a situação, bem como entender em quais áreas o Município já está atuando.

— Foi muito importante essa reunião hoje, com diversos setores da sociedade, exatamente para começar a entender essa questão do autoextermínio e saber como a OAB pode ajudar, como instituição que se preocupa com os direitos humanos, a solidariedade humana, com a participação da ordem junto à coletividade. Já começamos a pensar em uma forma de ajuda na formulação de uma política pública para auxiliar os munícipes de Divinópolis e região a tratar de um tema tão relevante — conta o presidente.

Ajuda

Apesar de funcionar 24h, o Sersam conta com a presença de um psiquiatra apenas de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h.

Para entrar em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV) basta ligar para o número 188 ou entrar no site https://www.cvv.org.br/.

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