O Bicho

Adriana Ferreira 

Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

Manuel Bandeira

Dias atuais

Este triste poema foi escrito em 1948 e, passados mais de 70 anos, ainda há homens revirando latas, catando comida entre os detritos. Com as cracolândias, esse número aumentou de forma espantosa. No Brasil há atualmente mais de 100 mil pessoas em situação de rua. Brasília/DF tem mais de 3 mil moradores de rua. Então é possível imaginar que a alta cúpula do Poder Judiciário e nossos demais representantes vejam todos os dias o bicho homem revirando latas. E mesmo assim encomendam vinhos premiados, lagostas, caviar e outros acepipes.  E quem paga é o povo, inclusive o que nada tem para comer.

Divinópolis I

É desconhecido o número de pessoas em situação de rua na Cidade do Divino. Mas, para se ter uma ideia, ao lado da ponte do Niterói, no local conhecido como “carrapateiro”, já foram encontradas, em uma só noite, 157 pessoas. Isso mesmo, cento e cinquenta e sete pessoas dividindo espaço ali, ao lado do rio Itapecerica, poluído que faz dó, cuja promessa de recuperação ocorre há quatro anos. Considerando que é ano de eleições, certamente teremos candidatos prometendo que o rio voltará a ser o que era antes: praia doce abaixo da ponte do Niterói e boas pescarias perto da ponte do Porto Velho. A gente chega até a sonhar.

Divinópolis II

Além do “carrapateiro”, temos ainda as marquises do Campo do Guarani, no bairro Porto Velho, onde já tive pessoalmente a oportunidade de estar com mais de 40 pessoas, todas em situação de rua.  Infelizmente há outras cracolândias pela cidade! Quando saíamos com o rabino Carlos Sátiro para distribuir víveres para as pessoas em situação de rua, já tivemos oportunidade de servir mais de 200 marmitex em uma só noite, somente para pessoas em situação de rua e, não raras vezes, não tínhamos o bastante. Já vimos várias dessas pessoas revirando latas de lixo, buscando comida, sem examinar e nem cheirar. Fora as pessoas em situação de rua, temos pessoas vivendo em casas de lona em bairros afastados, sem qualquer infraestrutura. A Cidade do Divino, Princesinha do Oeste tem mais de 4 mil pessoas vivendo na extrema pobreza. A Venezuela é aqui!

Lixo

Pois bem, ano eleitoral, eleitores vivendo abaixo da linha da pobreza, sem garantia de duas refeições diárias no mínimo e há vereadores que consideram lixo o café servido na Câmara. Quem, dentre os parlamentares, comunga desse pensamento é bicho, mas não bicho homem, e sim bicho escroto. Que seu(s) nome(s) seja(m) esquecido(s) e que volte(m) para os esgotos, de onde nunca poderia(m) ter saído. Asco!

Farra

Brasil é o país da farra com o dinheiro público. As regalias atingem todas as esferas do poder. Tratar de tanto capricho custa caro aos nossos bolsos. O padrão de vida às custas do erário só se compara aos de reis, imperadores e xeiques. É tanta extravagância que beira as raias do absurdo. Qual outro país que tem ex-presidentes que custam mais de R$ 10 mil reais por dia? Nem os EUA! E os aviões da FAB? É uma festa! Se o primeiro ministro sueco tem somente um serviçal pago pelo erário em sua residência oficial, no Brasil somente na casa do presidente da Câmara Federal há 49 serviçais que são pagos com nosso suor. Fora os outros assessores que tem no gabinete e em sua base eleitoral. Nenhum outro país do mundo tem o que juízes, promotores, parlamentares, chefes do executivo possuem. O Brasil já foi chamado de Belíndia e com razão. Aliás, tem que continuar a ser chamado assim: é a Bélgica para alguns e a Índia para a maioria da população. Para mais de 100 mil está mais para Sudão. Até quando?

Prefeitável

Se a vaidade for deixada de lado, não teremos mais que uns três candidatos, e que Galileu não esteja nesse grupo. Nada contra Galileu, ele, sim, tem contra a cidade se for novamente candidato. Chega!

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