Mito a caverna

Carlos Araújo

 

O Mito da Caverna, do filósofo grego Platão, nos leva a uma importante reflexão: podemos captar a existência do mundo sensível de forma inteligente e consciente. Platão fala de prisioneiros acorrentados que vivem presos, numa caverna, olhando para as paredes escuras iluminadas somente por uma fogueira. Nessas paredes são projetadas sombras de estátuas, animais, objetos, plantas. Os prisioneiros vão sonhando e dando nomes alegóricos a essas projeções nas paredes. Se um prisioneiro sair e se encantar com as belezas do mundo lá fora, ao voltar, se também contá-las aos outros, esses vão achar que ele se enlouqueceu, pois só fala do inexplicável para eles que estão acostumados a ver somente sombras nas paredes. Acham que ele ficou louco e, por isso, o matam, pois essa é a penalidade prevista.

No mito chamado Brasil, os prisioneiros somos nós. Acomodados, acreditamos, sem questionamentos, em imagens criadas pela cultura, conceitos e informações que recebemos de uma vida política desacreditada. O mito da caverna simboliza esse nosso mundo feito de imagens que não representam a realidade. É preciso nos libertar dessas correntes políticas que nos amarram os tornozelos e nos tornam presos em liberdade. Ou seja, estamos fora da caverna, sem libertar o nosso espírito do ambiente de caverna. Às vezes se diz, de uma pessoa, que ela está num lugar, mas a cabeça está longe. É mais ou menos isso. Estamos do lado de fora, porém não temos consciência do que está acontecendo. Uma capa de revista nacional acaba de dar o recado: “A República da Odebrecht, o maior esquema do mundo”.

Convoquem-se os nossos políticos, que vivem dentro da caverna do ter e do poder a qualquer custo, a respirarem a ética como um postulado filosófico e a moral, como um valor teológico. As duas, juntas, obrigando-os, em consciência, a não fazerem o que não se deve fazer ou deixar de fazer. Somente a ética e a moral, aliadas, terão o condão de transformar o país, passando-o a limpo da sujeira da corrupção.

Contudo, o ter e o ser não são incompatíveis. Ambos, ter e ser, podem conviver fora da caverna, quando o Ser bem exercido transforma-se em um justo Ter, como consequência lógica de necessidade e de sobrevivência. O grande problema é que grande parte dos políticos deixam o Ter dominá-los, contrariando o que diz Millor Fernandes: “você não pode deixar o ter te Ter”.

A solução é enxugar o estado: menos ministérios, menos senadores, menos deputados (uns 20% dos que existem bastariam, se forem brasileiros de verdade), menos empresas públicas, menos proventos e penduricalhos, menos mordomias, nos três poderes e nos três níveis, municipal, estadual e federal. Valorizar a educação é garantir menos presídios no futuro, mais saúde, mais possibilidade de realização pessoal e satisfação de viver, mais qualificação para o trabalho, menos roubos, maior segurança, libertação das imagens da caverna e libertação da fogueira a projetar sombras de pessoas “honestas”. Nela, há rios de lama, animais ferozes, perigos de toda espécie. É preciso soltar as correntes dos tornozelos e sair gritando aos quatro cantos que queremos vida nova. Vamos gritar alto e em bom som, de nossa caverna para a caverna dos políticos: Façam-se merecedores de nossa confiança. Por acaso seria exigir demais?... <calvesaraujo0089@gmail.com>

 

 

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