LINGUAGEM “MAIS OU MENOS” NEUTRA

CREPÚSCULO DA LEI – ANO III – CXLIX

 

Pipocam aqui e acolá gritos de louvação à “família tradicional” tomando conta das possibilidades auditivas da vereança, em prol do frenesi pela “família tradicional”, buscando a aprovação de leis proibindo (sic) a linguagem “neutra” em âmbitos educacionais, inclusive nas terras do divino.

Papo furado. Quase ninguém sabe o que é isso, nem é isso que está em jogo (aliás, como falar em respeito ou preocupação com a família em um país onde a “família” mais corrupta do planeta governa e desgoverna com requintes plutocráticos de necropolítica, destruindo milhares de famílias?).

O uso da “família” como técnica de perseguição é antigo e pode ser captado desde o “Malleus Maleficarum” (“Malleus Maleficarum, Maleficas & Earum Haeresim, ut Framea Potentissima Conterens”), de autoria dos dominicanos Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado em 1487.

O “Malleus” é o conhecido livro medieval “Martelo das Feiticeiras”, um manual dos inquisidores para perseguir as “bruxas” por serem instrumentos do demônio, mas também servia para muitas outras coisas, inclusive “proteger a família”. Por conta disso, centenas de milhares de pessoas, principalmente mulheres, foram torturadas, estupradas e queimadas no horror das fogueiras. Tudo em nome de Deus, da igreja, dos santos e da família.

Nas páginas de apresentação da “obra”, que ficam a cargo da professora Rose Marie Muraro, ela demonstra os primórdios do matriarcalismo com as mulheres ocupando a liderança das primeiras sociedades humanas, dotadas de representatividade da força divina que reproduzia a vida. O próprio tempo era medido a partir dos corpos das mulheres, inclusive para determinar a época da plantação e da colheita. Eram tempos em que a violência era desnecessária.

Quando o alimento se tornou escasso, as sociedades recorreram à violência por competição da comida e por guerras tribais. É a valorização do “herói” e da força masculina. O homem passa a controlar a sexualidade feminina e toma a mulher como sua “propriedade”, principalmente para transmitir “sua” descendência.

Verifica-se claramente que, depois do segundo milênio a.C., o divino se torna completamente masculino, capaz de gerar sozinho um primeiro homem e que gera uma mulher a partir de um osso torto desse homem. Assim, é evidente que a sexualidade feminina é reprimida aos moldes da vontade masculina, a qual vai cobrar essa sexualidade na relação direta da força de trabalho. O trabalho vai escravizar o homem, mas o homem vai escravizar a mulher.

O pequeno reino masculino se consolida no casamento. É ali que se instala o “efeito lúcifer” e o poder patriarcal se torna soberano absoluto, formando o “pater omniun” – patrimônio – para gerações futuras em nome da “família tradicional”. 

Nas palavras da profa. Muraro: “Já não é mais o homem que inveja a mulher. Agora é a mulher que inveja o homem e é dependente dele. Carente, vulnerável, seu desejo é o centro de sua punição. Ela passa a se ver com os olhos do homem, isto é, sua identidade não está mais nela, e sim em outro. O homem é autônomo e a mulher é reflexa… Como o pobre se vê com os olhos do rico, a mulher se vê pelo homem”.

Ao longo da história, quem usou a religião dos deuses masculinos para legitimar a família “tradicional” queria, na realidade, a preservação do patriarcalismo autoritário e violento, nem que para isso fosse necessário buscar novos “apedrejamentos” (?). Esse pessoal acha que não tem pecado algum.

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