Juízo Final

Amadeu Garrido

 

 

Dia morno de primavera. Amanheceria. Ainda breu, despertaram os serranos. Chegaram os transtornos derradeiros. Não houve previsões. Trouxe-o a brusquidão celestial. As escrituras se humanizaram. Pássaros voaram céleres. Sonhos se remexeram. Cobras aceleraram. Leões das montanhas se ajoelharam perplexos. Corujas intempestivas olharam a madrugada bíblica. Lobos não uivaram e cães quedaram silentes. Árvores se contorceram. Ventos sopraram furiosos sem uivar. Rios superabundaram os mares.

Nenhum sinal no céu. Nada de luz. Os cegos continuaram sem enxergar e os mancos a mancar. Logo começaria o despertar. Não houve som de trombetas. Poucos veículos encalharam – silenciosos. Um padre previu o desabrochar. Os primeiros homens e mulheres despertaram sem culpas. Nenhum cogitou de juízes. O planeta prosseguiu como sempre. As estrelas insistiram em brilhar. Aquele seria o primeiro dia estrelado. Cavalos velhos morreram em síncope. Carvalhos frondosos se dobraram.

Pedreiros olharam construções. Lixeiros abraçaram despojos. Pintores contornaram cores dispersas. Juízes se ornamentaram e aquietaram. Os padres leram evangelhos loucamente, sem compreender uma palavra.

Verdureiros perceberam folhas mais verdes e cheiraram suas raízes. Mangas rosadas, belas, caíram, maduras. Os castelos não sofreram nenhum tremor. Ninguém foi ao trabalho, ajuntaram-se todos em praças, quietos e pensativos. Poucas ideias eram trocadas. Mães não partejaram, e sobreviveram. O mundo incompreensível e perplexo. Uma aragem mansa e tranquila penetrou em todas as cabeças. Mentes engruvinhadas em sonolência crônica despertaram. Diferente, mas como uma garoa a regar todos os cérebros. Escritores quiseram escrever, mas o espetáculo os absorveu. Estranhamente, alguns livros despencaram espontaneamente. Alguém conseguiu ver Machado, De Quincey e Stevenson no chão. Outro, Erasmo e Emerson.

Górgias claudicou na eloquência e soçobrou no Adriático. Platão desfez-se de mistérios. Elétrons dançaram sem rumo. Epicuristas e estoicos se abraçaram numa redoma filosófica, ante o rosto macerado e severo de Sócrates. Raios e trovões se despejaram nos desertos do Oriente.

Virgílio e Dante caminharam em Paris extasiados.

Hospitais tiveram fortemente travadas suas portas. Mas, naquele dia único, ninguém sentiu dores. Os corações não estavam agitados, mas maravilhados. Amores fúteis não se acoplaram. Um professor de direito quis começar a falar de propriedade e perdeu a voz. Seus alunos se foram em direção à praça.

Barítonos ensaiaram; só perceberam algo estranho e bom. Canções estridentes emudeceram. Diálogos começaram, todos buscaram o significado. O planeta terra pensou. Figuras mitológicas e anjos borbulharam num incurial redemoinho de orvalho. Chocalhos foram permutados por bebês. Crenças primaciais agasalharam incréus. Poemas melodiosos se infiltraram nas muralhas de Jericó. Baralhos, espontaneamente, trocaram naipes. Governantes quiseram falar, mas se tornaram mudos. Não se observaram justiçamentos, mas corruptos e estupradores se debatiam, epilépticos.

Os diálogos suaves cresceram. Logo, todos conversavam sobre o passado e o futuro. Amanhã seria um novo dia. O fim já começava e era contínuo. Os semblantes já eram outros. Aquele dia se passara e ninguém tivera nenhum sofrimento. Os anjos encaminharam-nos às suas casas, onde ansiavam por um sonho igual. Somente os sonhos vivem. bruna@deleon.com.br.

 

Amadeu Roberto Garrido de Paula é advogado e membro da Academia Latino-Americana de Ciências Humanas.

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