Futuro da UFSJ ainda é incerto

Matheus Augusto

Em menos de um ano de Governo, estudantes e universitários de Divinópolis e todo o Brasil já foram às ruas duas vezes. O primeiro ato aconteceu no dia 15 de maio e o segundo em 14 de junho.  O intuito era reverter a decisão do ministro da Educação (MEC), Abraham Weintraub, de cortar verbas das universidades e institutos federais em todo o país. Na campus Dona Lindu da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), em Divinópolis, os alunos convivem com a incerteza, sem saber se as práticas, os projetos, as bolsas e o próprio estudo, continuarão com pleno funcionamento.

Sucateamento

A diretora de Relações Públicas do Diretório Acadêmico (DA) da UFSJ em Divinópolis, Débora Oliveira, explicou que está havendo um retrocesso na educação superior no país e os programas criados em governo anteriores estão sendo extintos ou esvaziados. 

— Estamos vindo de um período que considero áureo, dos últimos dez anos da educação superior, em que as universidades receberam muitos investimentos, houve ampliação de vagas, criação de campi, principalmente nas cidades do interior, e nós somos um exemplo claro disso. Houve a criação de programas como o ‘Ciência sem Fronteiras’, que oferecia bolsas para graduação e pós-graduação sanduíche. Agora estamos vendo uma crise que não víamos há muito tempo na educação superior no Brasil — contou.  

A presidente do Diretório Acadêmico da UFSJ, Lívia Andrade, ressalta que a contribução da universidade para a formação de mão de obra qualificada é possível graças aos investimentos feitos na unidade.

— Os recentes cortes na educação pública impactam não somente os alunos da UFSJ, mas toda comunidade divinopolitana. Nossa universidade é um campus da área da saúde, e acolhe estudantes da região, de todo o país e do mundo. Esse cenário foi possível graças aos investimentos anteriores na educação pública superior. No entanto, hoje, temos um panorama totalmente oposto, com cortes agressivos para sucatear as universidades públicas. Além disso, as bolsas de pesquisas foram suspensas, o que causa um desconforto maior aos pesquisadores, responsáveis por produzir ciência no Brasil. Outro ponto importante de se salientar é como a presença de um núcleo acadêmico é totalmente benéfico à cidade, pois estes estudantes movimentam a economia local, além de gerar mão de obra qualificada — destaca.

De todos

Débora explica que é fundamental compreender a importância social e econômica da universidade para o município para entender as consequências do corte de verba da Educação.

— Quando o campus de uma universidade encolhe, principalmente no interior, como aqui em Divinópolis, a cidade inteira tende a encolher junto. Inclusive, a criação de uma federal no interior tem o objetivo justamente de desenvolver esse município. Então, o contrário também é verdade. Porque, além de prestarmos serviço direto à comunidade, atendemos no SUS [Sistema Único de Saúde] e somos moradores dessa cidade. Estamos aqui pensando soluções, consumindo, comprando gasolina, fazendo compras no supermercado, pagando aluguel… Então, giramos a economia de Divinópolis e, se o Governo espanta esses estudantes, prejudica a cidade — explicou.

A diretora de Relações Públicas do DA conta ainda que os impactos dos cortes de verba se estendem aos funcionários.

— É de se imaginar que a universidade vai ter dificuldades para encerrar esse ano com suas atividades plenas. Quem sofre primeiro com isso, na minha opinião, são os terceirizados, seguranças, profissionais de limpeza… Essas pessoas também são moradoras de Divinópolis, que estão empregadas pela universidade. Então isso representa mais gente desempregada, e famílias que podem ficar com orçamento prejudicado — afirmou.

Outro impacto previsto diz respeito à restrição de experimentos e atividades práticas realizadas pelos estudantes. Assim, os complexos laboratórios da universidade bem como os insumos utilizados ficarão comprometidos.

Saúde

O principal auxílio prestado pela universidade, pelos professores e alunos acontece na área da Saúde. São diversas parcerias que auxiliam a Prefeitura na oferta de atendimento médico e clínico. E, caso os cortes continuem, a perspectiva é de encerramento dessas atividades.

— A UFSJ tem um currículo bastante moderno e os alunos estão em campo de prático desde o início do curso. Nós temos 12 turmas de medicina presentes no SUS, em várias Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Estratégia Saúde da Família (ESF) de Divinópolis, com a supervisão de professores médicos. E, muitas vezes, a gente acaba tampando aquele “buraco” de médicos especialistas em falta no SUS, ou unidades que não têm profissionais naquele momento. Essa parceria entre a Prefeitura e a universidade é muito importante para manter o SUS funcionando — pontua Débora Oliveira. 

Balbúrdia

Em sua página na internet, a UFSJ divulgou, no dia 6 deste mês, as informações que a classificam como a 2ª melhor colocada entre as universidades públicas no Brasil no quesito impacto de pesquisas brasileiras no cenário internacional.

— Então temos relevância internacional em termos de impacto de pesquisas brasileiras, o que contradiz o discurso que vem sendo criado em torno dos estudantes das universidades federais, de “balbúrdia”, de falta de produtividade — afirma Débora Oliveira.

Retrocessos

Para Débora, a perda para os cientistas de todo o país é imensurável. Mesmo que as pesquisas sejam pausadas temporariamente, todo o progresso feito pode ser perdido.

— A produção de conhecimento era para gerar renda para o Brasil e retorno para a população. E quando essa pesquisa para, ou fica atrasada em relação ao mundo, por dois ou três anos por falta de investimento, corremos o risco de perder esse posto de inovação. Às vezes alguém vai conseguir desenvolver antes [a pesquisa] e nós deixamos de ser reconhecidos por algo inovador — detalha.

Bolsas

Outro impacto aconteceria nas bolsas que auxiliam diversos alunos sem condições financeiras a permanecerem na universidade. Segundo a diretora de Relações Públicas do DA, elas deveriam ser políticas de Estado e estão ameaçadas com os cortes.

Consequências

Débora ainda ressalta que os impactos serão sentidos também em longo prazo, quando as oportunidades se tornaram menores para quem não pôde ingressar no ensino superior.

— São pessoas que deixam de ter uma formação superior, de ser mão de obra qualificada. Em longo prazo isso é devastador para o país. Acentuam-se as desigualdades e perpetua-se a concentração de renda, porque não mais se faz com que as pessoas saiam da pobreza e da marginalização — explica a diretora de Relações Públicas.

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