Exploração do cérebro feminino

Domingos Sávio Calixto

“Bastaria substituir os termos homens e mulheres por brancos e negros (ou índios), respectivamente, para se ter uma excelente definição de racismo. Exatamente porque tanto o racismo como o feminismo partem das diferenças biológicas para estabelecerem-se como ideologias de dominação. Cabe, então, a pergunta: como se explica este “esquecimento” por parte do feminismo?”

-Lélia Gonzalez

 

      Certos estudos – de autores renomados – enchem as livrarias com obras bem vendidas que estabelecem um dimorfismo sexo-cerebral, ou seja, obras de caráter científico que dividem o cérebro humano em duas espécies: um masculino, outro feminino. Em pleno século XXI.

       Foi com (esta) grande cientificidade (?) que o cérebro foi sequestrado como fundamento para revitalizar os discursos do patriarcado e propagar a inferioridade da mulher, por conta das funções do tal diferenciado “cérebro feminino” e suas regiões específicas que lhe condenaram ao âmbito privado.

       Não é novidade alguma que a ciência teve origem em saberes e práticas estritamente masculinas, e mesmo que se queira aventar o grande número de mulheres a ela – ciência – dedicadas, sobram-lhe as velhas metodologias masculinas, até mesmo na escolha de machos como cobaias.

       Desde os tempos do uso da frenologia como estudo do cérebro no século XIX – daí é bom lembrar Cesare Lombroso (1835 – 1909) e suas teorias que levaram à formulação conceptiva do “criminoso nato” – as ciências do patriarcado sempre se preocuparam em estabelecer diferenças biopsicológicas entre homens e mulheres, bem como hierarquizar tais diferenças de forma desvantajosa para as mulheres e, ao fim, construir um conjunto de práticas socioculturais para confinar as mulheres em funções privadas correspondentes à sua inferioridade.

       Foi com Péricles (490 a. C. – 429 a. C.) que os gregos inventaram o confinamento doméstico da mulher, o qual estabeleceu que o rosto público grego deveria ser o  rosto do homem ateniense. Com as mulheres guardadas e preservadas em suas casas, produziu-se um culto ao corpo masculino em gymnasions e symposions, além de práticas homoafetivas e pederastia dentro do exército ateniense.

       Ora, não existem elementos suficientes para se determinar uma diferença de cérebros pela categoria de sexo. Não há como estabelecer claramente, ou com um mínimo de segurança, que existam modalidades de cérebros masculino e feminino. O que existe são discursos que condicionam identidade de gênero às mulheres, de tal sorte que estas – as mulheres – estarão sempre em desvantagem cultural em relação às ideologias patriarcais.

       Portanto, não se trata de uma discussão que envolva apenas a estupidez do machismo. Há que se ir além e dotar a ciência de neutralidade metodológica para se chegar às forças originais que vêm mantendo esta divisão e que, por conta dela, vêm produzindo lucratividade sob os mais variados aspectos, inclusive atribuindo crescente valor mercadológico ao corpo feminino como espaço de exploração e de mais-valia sexual, algo que o capitalismo explora ao extremo e do qual não pretende abrir mão, certamente.

 

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