Documentaristas lançam filme sobre tragédia em Brumadinho

 

Ana Laura Corrêa

"Eu fico incomodado quando me chamam de herói. Estamos tão carentes de humanidade que querem taxar qualquer pessoa de herói. Ser bombeiro é a função que escolhi pelo seu caráter humano. Na verdade, eu não queria estar aqui, e acredito que você também não gostaria. Ninguém deveria estar aqui agora, porque esse foi um crime bárbaro. Mas, infelizmente, aconteceu, e nós estamos aqui. Eu vou tentar salvar vidas, resgatar memórias e ajudar a identificar corpos, e você, por favor, amplifique essas vozes.”

A fala, que é de um bombeiro em Brumadinho ao documentarista social e professor da Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg) em Divinópolis Richardson Pontone, resume a intenção da produção “Lama – O crime Vale no Brasil”, que será lançada na cidade hoje, às 18h30. A exibição será no CineClube Adriano Reis, no espaço de coworking do Geec, na avenida 21 de Abril, 1590, no bairro Santa Clara. O documentário também será apresentado nesta sexta-feira, 10, às 19h, no auditório da Uemg em Divinópolis. Para ambas as sessões, a entrada é gratuita.

Produção

Dirigido também pelo cineasta documentarista, diretor teatral, poeta e escritor Carlos Pronzato, e com direção de campo de Denise Belo, o longa, com 80 minutos de duração, foi feito de forma independente. A produção começou uma semana depois da tragédia, no dia 1° de fevereiro. Antes disso, em 28 de janeiro, Pontone, que já estava na região, foi até Córrego do Feijão e viu de perto a dimensão de toda a devastação.

— Ficamos dez dias em Brumadinho, ouvindo atingidos direta e indiretamente, e estivemos outros três dias em Belo Horizonte, entrevistando lideranças, pesquisadores, pessoas que passaram por Mariana, líderes de movimentos sociais, pesquisadores, autoridades no assunto, e sindicatos, porque também houve uma questão trabalhista. Nós não conversamos com políticos — contou Pontone.

A edição das cerca de 60 entrevistas durou onze dias.

— Nesta etapa, contamos com a ajuda de várias pessoas que se juntaram ao processo para tratar a cor e o áudio, por exemplo — disse o diretor.

Continuação

Pontone pretende dar continuidade à produção. Um livro reunindo relatos colhidos na pré-produção deve ser lançado. Além disso, o diretor abordará, com outro documentário, os efeitos da tragédia sobre o rio Paraopeba, seguindo o trajeto do leito até Três Marias.

— Não será a partir do audiovisual que mudaremos alguma coisa, mas ele - neste caso, o documentário - pode ser uma ferramenta pedagógica de esclarecimento muito importante, especialmente em tempos de notícias falsas — finaliza o diretor.

 

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