Crepúsculo da Lei – LII

Domingos Sávio Calixto

A confissão positiva

Eu não creio que o Espírito Santo queira palmas. Ele quer que você nos ajude a pagar nossas contas. Amém?! Ele quer que você bata a mão no bolso.”  - Edir Macedo

A confissão positiva é um entendimento concebido por alguns dos evangélicos neopentecostais, segundo o qual é possível uma invocação de poder vinda da palavra, conferindo a ela – a palavra – uma capacidade de gerar vida positiva.

 Trata-se de algo que se situa entre a hermenêutica e a teologia carismática do avivamento, seguindo daí que a palavra seria o signo de um poder vivo, já que Deus teria criado todas as coisas pela palavra, e o homem, como filho de Deus, também teria poder em sua palavra para gerar realidade no plano espiritual – muito embora não se saiba em qual língua Deus teria se manifestado no ato da criação.

Assim, dentro dessa arquitetura de linguagem é imperativamente proibido dizer-se pobre ou doente, porque assim se construiria uma realidade viva de pobreza ou doença pela força espiritual da palavra.

Sob esse aspecto, as palavras seriam declarações de poder em nome do divino e, por conseguinte, decretos impositivos da palavra divina pela boca do homem, vindo dele seu próprio evangelho da saúde e da prosperidade.

Ora, sob esse aspecto a confissão positiva pode se perder exatamente naquele elemento que a estrutura, ou seja, a palavra, na qual a deturpação poderia se dar em palavras e pela palavra, contrariando aquilo que é a própria essência do humano: a humildade – húmus, barro – sendo perfeitamente possível fazer uso dessa teologia para superar nefastamente o dualismo entre o corpo e espírito, de tal sorte que a validade espiritual recairia somente sobre a palavra, liberando o corpo para as “riquezas do mundo”.

Sem embargo, esse movimento de fé pela palavra pode também se sobrepor a qualquer outra palavra, inclusive interpretando que – por exemplo –  o primeiro homem, Adão, em sua riqueza original, era uma espécie de super-homem que voava, era dotado de superforça e até podia permanecer submerso debaixo d’água o tempo que quisesse (...).

Todavia, a questão vai mais além. É possível adotar a postura da confissão positiva para arrecadação exagerada de fundos como expurgo da pobreza, de tal sorte que ser rico – bastante rico – é a destinação que se deve dar aos homens pela graça divina.

Nada de pobreza ou doença – anátemas – como também importa não dizer-se pobre ou doente. Há que se repetir constantemente uma profissão de fé pelo dinheiro, pela riqueza e pela saúde inabalável.

Forma-se, então, o paradoxo das palavras, colocando, de um lado, os humildes, que serão bem-aventurados do alto, e do outro, aqueles que acumulam riquezas em vida, seja lá de que forma, desde que tragam a bem-aventurança em suas próprias palavras.

Vale “sola scriptura”. Amém!

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