A Primeira Dama negou o leite!

Tempo das Semanas de Arte — resistência cultural à Ditadura. Lançamento do “Agora” literário, no QG Divinópolis Clube. No primeiro piso, exposição do vanguardista Hevecus, que já questionava a durabilidade do suporte e pigmentos: obras emolduradas, nas paredes; e se colocava fisicamente como obra de arte de uma instalação fantástica: no chão, coberto de areia, apenas o rosto à mostra. Profunda metáfora da censura — tudo isso antes das Bienais de São Paulo.

Neide Malaquias, de Itapecerica, veio de Belô, onde estudava Letras, para um recital, no vernissage de Hevecus. Em vez da tradicional batida de laranja, fabricada na cozinha da minha casa, sugere servirmos leite, que o momento pedia consciência. Não existia ainda o leite “Astrovaca”, este se vendia nas portas ou se buscava na casa dos fazendeiros. A quem recorrer? Fomos à casa do Prefeito, que tanta sensibilidade demonstrara com a construção do Centro Cultural do Povo. A Primeira Dama nos recebeu, mas negou o leite. Sem problema: Marico e Odete o cederam generosamente.

Abaixo, em texto corridos, as falas de Osvaldo André e Neide Malaquias, da lavra desta.

 “Suponhamos que você entra num bar. E pede um copo de leite. Súbito, alguns meganhas se aproximam e, depois de alguma conversa, retiram você do local e você desaparece misteriosamente.

 “Todavia um homem desparece, pela violência. / Mas outro homem morre ainda assim./ E também se perde um homem. / Enquanto, clandestinamente, roubam a vida a um homem. / Também de tristeza choramos a morte de um homem; morte que os jornais não noticiaram. / E em Itabirito um estudante é trucidado por soldados da polícia local, sendo que os jornais não fizeram público tal fato.

 “Depois de algum tempo, algumas pessoas dão com o seu corpo esquartejado, à beira de uma estrada qualquer.

 “Meu colega estudante, você andava metido em atividades subversivas ou se ocupava com a restauração da ordem das coisas?

 “Sua morte anônima nos coloca diante de uma questão de injustiça, senão de troglodismo.

 “Não que a quiséssemos nas primeiras páginas dos jornais, que nunca a entenderemos.

 “O leite que ingerimos agora é o protesto puramente derivado pelo qual pensamos chegar até você.”

O coquetel é servido. Todos, reflexivamente, sorvem em silêncio o leite, nos copos americanos. osvaldoandredemello@hotmail.com

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