‘Egoísta’

Israel Leocádio 

Olá! Como vai? Certos momentos revelam as pessoas. Geralmente, esta afirmação que faço aplica-se com mais frequência aos momentos difíceis. As pessoas não conseguem conter o que realmente sentem quando o perigo as cerca. Temos visto isso nestes dias: o mundo em polvorosa. A confusão é geral. O noticiário na TV mostra a corrida das pessoas aos supermercados em países afetados pela epidemia do Covid-19. Prateleiras vazias, escassez de alguns itens de higiene e alimentação. Cidades turísticas desertas. O vazio das ruas nos faz lembrar dos filmes a que assistimos nos cinemas. O pior, em tudo o que assistimos a cada epidemia que o mundo atravessa, é que “não se trata de um roteiro de cinema; não há alguém escrevendo a ação de cada personagem. É real!”. Isso assusta! Alguns chegam à sensação de pavor. Em meio a esse pavor da expectativa de uma pandemia, o sentimento que sobressai aos demais é a preocupação individualista. Cada um quer salvar a si mesmo. Pergunto: isso é instinto ou o retrato cruel de uma humanidade egoísta? Quando o homem percebe que não tem o controle da situação ele age com precaução ou egoísmo puro?

Acredito que ainda não conheço o limite do homem diante de seus medos. Parece-me que a humanidade é capaz do inimaginável. O que vejo o homem fazer ao outro é preocupante. Cada um se preocupa com o seu próprio umbigo. A humanidade parece estar aprisionada ao egoísmo.

Não é preciso ir à Wuhan (cidade chinesa onde surgiu a epidemia do coronavírus) nem é preciso viajar para o outro lado do Oceano Atlântico para ver como cada indivíduo busca salvar a si mesmo, ignorando completamente o outro. É possível ver esse sentimento aqui mesmo! Os hospitais mostram esse retrato claramente. Pessoas em situação de urgência sendo desprezadas por outras pessoas, que, ainda sendo capazes de perceber sua própria situação de saúde em relação ao outro, brigam pela prioridade. Essa é a humanidade. Essa é a “self social” do século XXI. O lema é: “Cada um por si e Deus por mim!”. A filosofia é: “O que é meu, é meu. O que é seu, é meu!” A humanidade que se gaba de sua ciência avançada, tecnologia e cultura é, de fato, mais cruel do que foi no passado.

Tudo isso contrasta com o comportamento de Jesus, que veio ao mundo não por si mesmo, mas pelo outro. Ele mesmo declarou: “eu dou a minha vida”. E fez isso por nós! (João 10.18). Também foi capaz de dar sua vida pelos seus amigos (João 15.13). Isso contraria a lógica daquilo que estamos nos acostumando a ver nestes dias.

Gosto de fechar os olhos e imaginar as reações de Jesus diante do cenário catastrófico de completo egoísmo e desvalorização do ser humano desta geração. O que meus pensamentos conseguem ver é um Jesus que não fecha fronteiras aos refugiados (ainda que lhe sejam opositores na fé). Vejo um Cristo que não se opõe a um abraço ou sai às compras para se fechar seguro em sua casa. Antes, o vejo fazendo exatamente o oposto. Acredito que muitos concordam com os meus pensamentos. Se existia algo em Jesus de Nazaré que o destacava em meio à multidão é sua capacidade de altruísmo. Jesus veio ao mundo em razão da nossa necessidade. Viveu em meio aos necessitados. Foi médico para os doentes, amigo para os desprezados. Morreu por causa de nossos pecados. E, ainda hoje, advoga a causa dos que o buscam. Se existe algo que ninguém pode dizer de Jesus é que ele foi egoísta. A pergunta que isso me sugere deixo a todos: e nós, os que dizemos ser cristãos, temos imitado a Jesus, como sugere este termo? Até onde o distanciamento de Deus nos levará?

Israel Leocádio

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